Sonhos de Figueira Cid

Sonhos de Figueira Cid

 
 

O Entre foi ao teatro! A curiosidade sobre a nova produção d´A Bruxa Teatro era tanta, que decidimos ir espreitar os “Sonhos“. Uma vez lá, entrevistamos Figueira Cid, director da peça, sobre estas e outras visões:

 

 

Entre: O que o inspirou a criar esta peça?
Figueira Cid: É sabido como os tempos que correm estão a afectar, em muitos casos injustamente, a sociedade portuguesa em todas as áreas. Contudo, no que às artes em geral, e às de palco em particular se refere, a situação tem vindo a degradar-se até ao limite do suportável.
Esse foi o ponto de partida: uma metáfora entre as necessidades vitais do ser humano – ou a ausência delas! – e as outras necessidades, também elas fundamentais, a cultura. Mesmo que não se admita, conscientemente, a sua importância…
Num momento em que os criadores, profissionais do sector se encontram vilipendiados por falsas razões economicistas, essa metáfora do tempo negro que se vive era para nós, fundamental, como afirmação prática da afirmação do projecto ‘aBt’.

 

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Entre: Num espectáculo em que “as palavras dão lugar às imagens”, quais as diferenças, vantagens e dificuldades que encontrou no processo criativo em oposição à escrita e encenação baseada no diálogo?
Figueira Cid: Devo confessar que não foi tarefa fácil.
Até porque essa não tem sido a nossa escolha estética. Aliás, a escolha muito criteriosa dos textos apresentados ao longo destes 10 Anos (a maior parte deles inéditos, muitos premiados…) e que reflectem, de forma exemplar, o homem na sociedade contemporânea, são disso exemplo.
A diferença reside, desde logo, na ausência de qualquer palavra. Logo, o processo foi ir criando, teoricamente, situações, que depois seriam testadas, suprimidas, exploradas em palco. No fundo, criar, aos poucos uma história.
Daí resultou um raro empenho por parte dos actores que, após muita pedra partida, lograram estabelecer o fio condutor. Fio condutor que, aliás são tão subjectivos quantos os olhares. E esta é uma das grandes virtualidades deste espectáculo, a que não é alheio o envolvimento sonoro. A par de, naturalmente, sendo um espectáculo sem palavras, ser universal.

 

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Entre: No programa refere que os intervenientes são voluntários, não receberam qualquer cachet pelo seu trabalho. Nestas condições, como encontra motivação e a transmite às pessoas com quem trabalha?
Figueira Cid: Em primeiro lugar, há que contextualizar.
Em boa verdade, este texto não era suposto ter acontecido. Só após termos tido conhecimento – oito meses após o  lançamento do concurso local – que a autarquia não iria apoiar financeiramente a ‘aBt’ e já com o texto escolhido em ensaios – ‘A Pantufa’ – e que houve necessidade de suspender, é que se decide avançar…
E avançou-se porque estes jovens (estudantes da Universidade de Évora) desejaram, veementemente, trabalhar na ‘aBt’. Mesmo que não houvesse lugar a qualquer cachet… A bilheteira seria repartida pelos actores (Isabel Sousa e Sérgio Faria).Também o músico veio a juntar-se ao grupo, o André Pinto (Mestre André). E um dos cenógrafos/figurinistas, a Catarina Cid (de parceria com João Piteira).
Só a necessidade e a obrigação de trabalhar para estas pessoas – eram elas que iam estar sob os olhos críticos dos espectadores – foi a motivação que serviu a cada dia de ensaio. Só a obrigação moral de retribuir o empenho foi a mola impulsionadora para que o espectáculo tivesse a qualidade a que a ‘aBt’ habitou o público.

 

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Entre: Qual a reacção e adesão do público a estes “Sonhos”? 
Figueira Cid: A natureza do espectáculo, que é quase original na ‘aBt’, colocava-me com algum receio que não tivesse o acolhimento que desejávamos. A variedade de linguagens que o espectáculo aborda e, que não são, uma prática minha continuada, colocou-me sempre em franca expectativa. A margem de risco era muito elevada. No final, o resultado, a opinião dos espectadores, revelou-se muito acima das expectativas. Absolutamente inesperadas. As cerca de quatro centenas de espectadores que a ele assistiram (entre crianças, jovens e adultos), manifestaram-se, maioritariamente, muito satisfeitos e surpreendidos – também eles – com o espectáculo.Tanto mais que a publicidade era abaixo de mínima: foi o ‘boca-orelha’ o grande veículo de transmissão de opiniões sobre o espectáculo, tendo-se verificado um razoável número de novos espectadores… Inesperado! Mas compensador.
 
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Entre: Conhecendo certamente as dificuldades e obstáculos que o teatro e as artes em geral enfrentam, quais os planos d’A Bruxa Teatro para o futuro próximo?
Figueira Cid: Aguardamos o resultado do concurso à SEC/DGArtes. Depois disso, serão anunciados os planos para o futuro.